Domingo, 14 de Maio de 2006

Crónicas de uma Profe no Exílio III

O exílio agora já não mora a 300 Km de casa. O exílio impregnou os gabinetes, as salas de reuniões, toda a 24 de Julho, os Paços do Conselho e qualquer lugar onde more a decisão e a bala do decreto. E o decreto agora não passa de um pergaminho envenenado de peçonha, e despeito. Quem o aplica espuma raiva e aplaude com a intensidade proporcional aos dividendos de poder que capitaliza. Vem em forma de seta, emitido por mãos certeiras que vingam as passadas aleivosias dos pedreiros-livres da nação, esses pensadores sem glória, os “flaneurs” da sociedade que carregam o saber como uma albarda que ninguém quer, porque a escolaridade é obrigatória e toca a passar tudo que mexa, porque os ratios são como ratoeiras, quanto mais ratos apanharem mais a Europa arrota. Não duvidem. O poder morre só e exilado, quando se exerce como reflexo de si mesmo. E o exílio das almas decisoras começa no momento em que a consciência se faz lâmina e a máscara pesa. E eu sei que a noite cai para todos, sobretudo para aqueles que têm nas suas mãos os desígnios de milhares de almas anónimas.

A hipocrisia começa e acaba no momento em que se capitalizam razões e acusações para justificar fins. Compra quem quer comprar o discurso mediático da moralização das hostes incumpridoras. Preparemo-nos, dizem, para a produtividade. Leia-se o sucesso a todo o custo, mesmo que não haja sucesso. E se não o fizermos, não nos podemos depois queixar se o ensino privado nos desacreditar, coisa que já não precisa senão de um empurrãozito final. Mas eu não vendo nem compro almas. Ouço-as, acompanho-as, dou-lhes autonomia e saber.  Se querem que a escola seja um departamento comercial ou de Marketing com ratios de produtividade, dêem-me o prémio único, que outro não quero, de dignificarem e apreciarem o que faço. E ainda assim, não há objectivos que se capitalizem quando tratamos de pessoas e não de shampoos ou outros produtos capilares. Ouçam-nos antes e tirem-nos o chapéu. Nenhuma outra classe aturaria o que temos aturado ao longo de duas ou três décadas de decisores iluminados e sisudos.

E não me venham com o discurso da globalização para a frente porque eu não sou massa amorfa nem nunca hei-de ser. Se lixarem ainda mais o ensino, lixando quem aí lhe sustenta as pontas, não venham depois culpar quem já foi culpabilizado. Ninguém pode ser julgado duas vezes. Carregamos já a culpa de Adão e Eva, fosse lá o que fosse que tivessem feito no Paraíso. Que mais culpas teremos de carregar? Não me venham endrominar com discursos de castigos divinos por delegação ministerial, porque não me convencem. Se querem aplicar medidas impopulares, não façam de otária toda uma nação e toda uma classe.

Tinha muito para vos contar, peripécias inenarráveis de tão absurdas, das quais me rio, como me rio de todos os burocratas que vestem a bata da assertividade e dizem que vivem. Talvez ainda o faça, quando acabar os relatórios e a escrita inútil que me mina as horas, a criatividade, a paciência, das oito às oito, o que não me traz novidade nenhuma, a não ser o facto de tal corresponder a horas de permanência na escola, com aulas e actividades e inúmeros buracos pelos meio, em que fico a tentar imitar os meus colegas da Finlândia, que esses sim, cumprem! Por isso voltar a casa e juntar a família é já uma miragem. Poder voltar a ter tempo para cuidar dos meus filhos, já era fantástico. Pergunta: será legal ter filhos? E se adoecerem? Quem quer saber com quem os deixo, nos intermináveis conselhos pedagógicos e outras reuniões onde a iguaria são decretos ou a aplicação de decretos? Não me lamentem a mim. Lamentem os meus alunos e os meus filhos. Em 2050 Portugal será o país mais pobre da Europa. (Quem sabe o que será nessa altura a Europa?) A globalização vai empacotá-los, etiquetá-los e pô-los numa linha de montagem. Eu já cresci. Aliás, eu nem sequer sou nada. A minha voz é um uníssono de outras caladas.

Texto enviado por Libelua

publicado por serprofessor às 13:38
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