Terça-feira, 3 de Janeiro de 2006

Plano de recuperação

No primeiro dia de aulas do 2º período, os noticiários voltaram a lembrar que, este ano, ao alunos com mais dificuldades beneficiam de aulas de apoio a partir de agora.
Como sabem, trata-se de uma referência ao Despacho Normativo n.º 50/2005 que define, no âmbito da avaliação sumativa interna, princípios de actuação e normas orientadoras para implementação, acompanhamento e avaliação dos planos de recuperação como estratégia de intervenção para o sucesso educativo dos alunos do ensino básico.
Diz este despacho, no seu ponto 2:
Plano de recuperação
1—Para efeitos do presente despacho normativo, entende-se por plano de recuperação o conjunto das actividades concebidas no âmbito curricular e de enriquecimento curricular, desenvolvidas na escola ou sob a sua orientação, que contribuam para que os alunos adquiram as aprendizagens e as competências consagradas nos currículos em vigor do ensino básico.
2—O plano de recuperação é aplicável aos alunos que revelem dificuldades de aprendizagem em qualquer disciplina, área curricular disciplinar ou não disciplinar.
3—O plano de recuperação pode integrar, entre outras, as seguintes modalidades:
a) Pedagogia diferenciada na sala de aula;
b) Programas de tutoria para apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno;
c) Actividades de compensação em qualquer momento do ano lectivo ou no início de um novo ciclo;
d) Aulas de recuperação;
e) Actividades de ensino específico da língua portuguesa para alunos oriundos de países estrangeiros.
4—Sempre que, no final do 1º período, um aluno não tenha desenvolvido as competências necessárias para prosseguir com sucesso os seus estudos no 1º ciclo, ou, no caso dos restantes ciclos do ensino básico, obtenha três ou mais níveis inferiores a três, deve o professor do 1º ciclo ou o conselho de turma elaborar um plano de recuperação para o aluno.
5—O plano de recuperação é apresentado à direcção executiva do agrupamento ou escola, para os efeitos previstos no artigo 6º.
6—Na primeira semana do 2º período, o plano de recuperação é dado a conhecer, pelo responsável da turma, aos pais e encarregados de educação, procedendo-se de imediato à sua implementação.
7 —Os alunos que, no decurso do 2º período, nomeadamente até à interrupção das aulas no Carnaval, indiciem dificuldades de aprendizagem que possam comprometer o seu sucesso escolar são, igualmente, submetidos a um plano de recuperação.
8—O plano de recuperação é planeado, realizado e avaliado, quando necessário, em articulação com outros técnicos de educação, envolvendo os pais ou encarregados de educação e os alunos.

Que novidades traz este despacho? Nenhuma.
Há muitos anos que as escolas definem um plano de recuperação deste tipo para todos os alunos que revelam dificuldades.
Há muitos anos que as escolas disponibilizam aulas de apoio às disciplinas mais problemáticas que são, normalmente, as Línguas Portuguesa e Estrangeira e a Matemática.
Todos os anos os alunos são encaminhados para esse tipo de apoios, bem como para os serviços de Psicologia ou outros considerados necessários.
Todos os anos muitos encarregados de educação tomam conhecimento destes planos, tal como acontecerá no presente ano lectivo, mais uma vez.
O que costuma acontecer? Várias situações:
-muitos encarregados de educação recusam esses apoios, alegando que os alunos têm explicadores, ou que o horário não lhes convém, ou outras razões;
-muitos dos alunos vão às aulas de apoio obrigados e não tiram qualquer proveito delas, prejudicando, frequentemente, os restantes colegas;
-muitos alunos faltam, injustificadamente, até serem excluídos.
Depois, temos aqueles que realmente beneficiam destes planos de recuperação, que são os alunos que se mostram empenhados.
Custa-me que continuem a pensar que os alunos não têm sucesso por terem dificuldades de aprendizagem ou por não lhes serem dadas as condições para as ultrapassarem.
O problema grave da maior parte dos alunos é o pouco empenho nas actividades escolares, é a total desmotivação, é a falta de regras, é a desculpabilização por parte dos encarregados de educação e da própria sociedade.
Há alunos com dificuldades de aprendizagem? Certamente que sim.
Agora imaginemos que dou nível 2 a dez alunos, três com dificuldades de aprendizagem e sete porque não trabalham. Que vantagens vão ter esses três alunos com dificuldades, se vão ser tratados da mesma forma que os outros sete e que ainda vão ser prejudicados por ser uma grupo tão grande numa aula de apoio?
Os alunos não são iguais, não podem ser tratados da mesma forma e não há ninguém que os conheça melhor que os próprios professores.
De que nos servem estes despachos que são tão badalados na comunicação social, mas que nada de novo trazem?

publicado por serprofessor às 10:12
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1 comentário:
De Anónimo a 3 de Janeiro de 2006 às 17:30
Servem, essencialmente aos sucessivos ministros, que ganham alguns minutos de propaganda gratuita em horario nobre de todas as televisões e rádios, que é aquilo que qualquer político ambiciona.Rui Silva
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(mailto:ruimpsilva@gmail.com)

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